A série espanhola da Netflix, intitulada Cidade de Sombras, estreia como um thriller policial que ultrapassa a simples resolução de mistérios. A trama se baseia no livro El Verdugo de Gaudí e é dirigida por Jorge Torregrossa. Ao longo de seis episódios, a série explora assassinatos brutais para discutir temas como poder, opressão e as consequências de decisões políticas que não foram reparadas com o tempo.
A história se inicia com um crime chocante em Barcelona. Edward Pinto, um influente empresário da construção, é sequestrado e encontrado cinco dias depois, queimado e pendurado na Casa Milà, um famoso edifício projetado por Antoni Gaudí. O corpo, coberto de gasolina e com a letra “G” pintada ao redor, transforma o crime em um espetáculo macabro. Esse marcante início chama a atenção da juíza Susana, que convoca o policial suspenso Milo Malart para contribuir com a investigação.
Milo é acompanhado pela analista comportamental Rebeca Garrido, que também tenta entender o significado por trás do crime ritualístico. A dupla começa a suspeitar que há uma mensagem oculta relacionada a grandes personalidades e grupos simbólicos na Catalunha. No entanto, as novas teorias são frequentemente desconsideradas por seus superiores, especialmente pelo sargento Singla, o que impede o avanço das investigações.
Uma nova reviravolta ocorre quando Felix Torrens, responsável por uma fundação social, desaparece nas mesmas condições que Pinto. Inicialmente, a polícia acredita que ele fugiu devido a um escândalo de corrupção. Porém, vídeos de tortura enviados anonimamente contestam essa versão, revelando um padrão cruel de sequestros e execuções que afeta influentes da sociedade.
Enquanto isso, o enredo também mergulha na vida pessoal de Milo, que carrega um fardo emocional significativo. Ele se encontra em conflito com seu irmão Hugo, que o culpa pela morte do sobrinho, e enfrenta problemas mentais que incluem ataques de pânico. Rebeca aparece como um suporte emocional para ele, já que também perdeu a mãe e compreende a dor da perda.
A trama toma um rumo inesperado com a introdução de Mauricio Navarro, um jornalista que transforma os casos em um espetáculo midiático. Sua ambição o leva a desacreditar Milo publicamente, mas ele acaba se tornando um alvo dos sequestradores e acaba morto, seguindo um ritual semelhante aos anteriores, mas sem a repercussão desejada.
A revelação final aponta para os irmãos Helena e Hector Guitart como os responsáveis pelos assassinatos. Eles cresceram em um ambiente marcado pela dor; perderam o pai durante a remoção forçada de uma comunidade para a construção das Olimpíadas de 1992, e nos reformatórios enfrentaram abusos graves. Sua vingança é impulsionada não por ódio, mas pelo desejo de expor a injustiça e o trauma que sofreram.
No clímax da série, Helena e Hector planejam um ato de protesto durante a visita do papa à Sagrada Família, um símbolo da cidade. Hector comete autoimolação em público, enquanto Helena tenta destruir a fundação de Torrens. Ela também se incendeia, deixando um rastro de perguntas sobre as falhas do sistema e da sociedade.
Cidade de Sombras se encerra sem fornecer alívio. A série não absolve os assassinos, mas oferece um questionamento profundo sobre as raízes do desespero e da violência institucional. Em uma Barcelona que parece cúmplice da tragédia, a história provoca reflexões sobre o que leva pessoas a extremos e quem realmente é responsável por permitir que tais atrocidades aconteçam. No final, o espectador é convidado a refletir não apenas sobre quem matou, mas sobre quem deixou que tudo isso ocorra.
