O filme “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” está em cartaz nos cinemas e, embora inclua alguns momentos engraçados, não é uma comédia. Rose Byrne, a protagonista, foi premiada no Globo de Ouro como melhor atriz em comédia ou musical. No entanto, essa categoria pode não refletir com precisão a profundidade e a seriedade da trama, considerando a carreira da atriz em comédias como “Missão Madrinha de Casamento” e “Vizinhos”.
No filme, Byrne interpreta Linda, uma mãe que enfrenta o extremo desgaste emocional e físico ao cuidar de uma filha com graves problemas de saúde. O marido dela é ausente, mas não hesita em ligar para oferecer conselhos que não são úteis. O apoio que Linda deveria receber da sociedade — representada por médicos, colegas de trabalho e até mesmo amigos — não se concretiza, e, ao contrário, ela é frequentemente cobrada e criticada.
A narrativa leva Linda a uma espiral de perda de dignidade e amor-próprio. A diretora Mary Bronstein faz escolhas significativas para destacar essa queda. Por exemplo, a ausência dos personagens da filha e do marido durante quase toda a história ajuda a realçar a solidão e a pressão que Linda sente. Essa abordagem permite ao público ver a filha como uma fonte de estresse emocional, levando Linda a se afastar dela ou a buscar alívio nas drogas.
Bronstein também utiliza elementos de fantasia sombria para ilustrar a deterioração da sanidade da protagonista. Em momentos de exaustão e sob o efeito de substâncias, surgem situações bizarras, como um buraco enorme no teto, que revela um lar caótico e insuportável. Os personagens secundários trazem uma atmosfera densa, quase de terror, que intensifica o sofrimento de Linda, que, mesmo sendo psicóloga, se vê desamparada.
A apresentação da casa também serve como um reflexo do estado emocional de Linda. O ambiente se torna escuro e inquietante, simbolizando seu relacionamento com a filha. Em um dos sonhos perturbadores, Linda desliga a máquina que dá suporte à vida da menina, manifestando a profundidade de sua crise.
Mais uma vez, a diretora insere elementos sombrios na trilha sonora. Os ruídos captados pela babá eletrônica criam uma tensão incomoda, sugerindo que a situação entre mãe e filha é precária e que algo terrível pode acontecer a qualquer momento.
O filme, assim, se desdobra em críticas sutis à pressão social sobre as mães, mostrando como a falta de apoio pode levar a um colapso emocional profundo. “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” é, portanto, uma reflexão sobre as dificuldades da maternidade em circunstâncias extremas.
