O documentário ‘Telúrica, a Íntima Utopia’, novo longa-metragem de Mariana Lacerda, foi exibido na mostra competitiva da 15ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba. O filme acompanha o processo criativo da Companhia Teatral Ueinzz, grupo formado por atores que vivem em sofrimento psíquico e deficiência intelectual.
A obra mergulha nos bastidores da criação de um espetáculo que discute a extinção da Terra, a sobrevivência da humanidade e o desejo de continuar existindo. A diretora abre espaço para que cada voz encontre seu lugar, construindo uma intimidade genuína com os protagonistas. Em poucos minutos, a barreira entre espectador e personagem desaparece.
Os integrantes da Ueinzz não são tratados como objetos de observação ou símbolos de superação. São pessoas complexas, cheias de humor, criatividade, inquietações e contradições. O filme levanta questões sobre o papel da arte na vida de indivíduos frequentemente marginalizados pela sociedade.
A criação artística funciona como instrumento de expressão, pertencimento e transformação. O teatro surge como uma ferramenta de sobrevivência emocional. Em diversos momentos, fica evidente como a arte se torna um abrigo e uma forma de salvação.
A montagem do documentário encontra um equilíbrio entre observação, contemplação e ritmo narrativo. Visualmente, a diretora demonstra sensibilidade na composição dos enquadramentos. A câmera observa, escuta e acolhe, reforçando a atmosfera de intimidade que permeia a obra.
Mais do que um filme sobre teatro, é um documentário sobre a necessidade de pertencer a algo maior. É uma celebração das formas frágeis, mas poderosas, de existir. Um retrato sobre pessoas que encontram na arte uma maneira de resistir ao isolamento e ao sofrimento.
Mariana Lacerda entrega um dos documentários brasileiros mais sensíveis e humanistas dos últimos tempos. A direção segura, aliada a uma montagem primorosa e a personagens inesquecíveis, resulta numa obra que toca o coração e permanece na memória após os créditos finais.
