Em cartaz nos cinemas nacionais, ‘A Odisseia’ continua gerando fortes debates. Desta vez, a crítica mais afiada veio de Emily Wilson, renomada tradutora e classicista. Segundo a especialista, o épico “não tem nada de convincente a dizer” e carrega uma gritante “falta de profundidade psicológica, emocional, política e ética”.
Em artigo publicado pelo The Guardian, Wilson não poupou o diretor Christopher Nolan, apontando uma grande desconexão entre o visual e a narrativa. “Eu esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos o levasse a novos patamares criativos e permitisse criar personagens mais convincentes. Mas A Odisseia apresenta a combinação habitual de grandiosidade e superficialidade. A visão do filme é confusa demais e seus personagens são pouco desenvolvidos para entregar o que promete em termos de grandes ideias, embora seja muito bom em mostrar grandes explosões e grandes gigantes”, afirmou.
A pesquisadora continuou sua análise destacando as lacunas em comparação com a obra original. “A Odisseia de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. O filme não tem nada de convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e a vida de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos. Falta profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é cheia de truques. O roteiro é péssimo. Nenhum dos personagens possui motivações convincentes para suas ações ou falas. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível”, disse.
Wilson, que é professora e chefe do departamento de Estudos Clássicos da Universidade da Pensilvânia, lembrou que Nolan chegou a elogiar a primeira frase de sua famosa tradução e disparou: “Eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro”.
A especialista reforçou que o longa não conseguiu gerar conexão emocional com o público. “O filme não me emocionou em nenhum momento. Acho que isso acontece, em parte, porque, ao contrário de Homero, ele não é muito bem escrito. Os personagens não têm o tipo de profundidade que os personagens de Homero possuem. Em vários momentos pensei: ‘Será que eu realmente me importo se esse cara vai conseguir voltar para sua esposa?’ O filme não me deu motivo para isso”, afirmou.
Apesar das duras críticas artísticas, Wilson reconheceu a enorme importância cultural do projeto e comemorou o impacto positivo que o filme causou no interesse pela literatura clássica. “O lançamento de A Odisseia ainda é um acontecimento a ser celebrado. Esse épico está levando o público de volta aos cinemas. As traduções da Odisseia, incluindo a minha, estão vendendo muito. Talvez o filme convença alguns administradores universitários a não cortar departamentos de literatura, línguas e história”, destacou. “Nolan está fazendo o possível para que o público volte a ler, e sou grata por isso”, concluiu.
‘A Odisseia’ segue em exibição nos cinemas nacionais.
