O Festival de Cannes abriu sua seção Um Certo Olhar com o filme ‘Teenager Sex and Death at Camp Miasma’, da diretora Jane Schoenbrun. O título remete aos filmes de terror B dos anos 1980, mas a obra propõe uma abordagem metalinguística do gênero slasher.
O prólogo do longa recria a trajetória de uma franquia fictícia chamada Miasma, desde o sucesso inicial até a degradação com sequências cada vez mais absurdas e o fracasso comercial. A diretora mostra o ciclo industrial do cinema de gênero, que transforma uma ideia criativa em produto corporativo.
A trama acompanha a roteirista não-binária Kris, vivida por Hannah Einbinder, obcecada pela saga. Ela viaja para convencer Billy, interpretada por Gillian Anderson, a atriz do primeiro filme, a retornar ao papel que a tornou a primeira “final girl” da franquia. A dinâmica entre as duas gerações que tentam entender o que significa amar uma obra construída sobre estruturas violentas é o centro emocional do filme.
Em vez de condenar os slashers dos anos 1980, Schoenbrun busca compreender como códigos machistas e homofóbicos foram naturalizados. O filme aponta para a objetificação feminina, a punição moral do desejo e os estereótipos queer, perguntando o que significa revisitar essas imagens hoje.
Uma das cenas mais marcantes é uma reunião de produção via Zoom, onde produtores e executivos discutem o reboot como um produto matemático. A diretora satiriza a indústria contemporânea, que transforma qualquer gesto artístico em cálculo de mercado.
Apesar da metalinguagem, o filme não abandona o prazer do slasher. Há adolescentes correndo na floresta, corpos pendurados e sangue artificial. O assassino, uma espécie de primo degenerado de Jason Voorhees, vive no fundo de um lago e usa um aparelho de ventilação que produz uma respiração mecânica. A câmera frequentemente assume o ponto de vista do assassino, revelando depois que se trata de um filme dentro do filme.
Schoenbrun relaciona horror e identidade, como já fez em ‘Eu Vi o Brilho da TV’ (2024) e ‘Vamos Todos à Exposição Mundial’ (2021). A diretora investiga como as imagens moldam subjetividades e como a cultura pop se torna uma estrutura emocional coletiva. O filme tenta desmontar os códigos invisíveis da cultura dominante, construída sob perspectivas patriarcais e heteronormativas.
Ainda que se perca em um romance maçante entre diretora e atriz e repita algumas cenas, ‘Teenager Sex and Death at Camp Miasma’ é engraçado, autoconsciente e sangrento. O longa entende que certos monstros não vivem no lago, mas nas narrativas que aprendemos a aceitar como naturais.
